1 de July, 2008
Lei da Inevitabilidade do Comentário Inane
Sempre que você disser, a respeito de dois males de graus diferentes de atrocidade, "entre isto e aquilo, prefiro isto", alguém vai aparecer para dizer "pois eu não prefiro nenhum dos dois, muito obrigado", exatamente nessas palavras e num tal grau de satisfação que uma úlcera perfurará imediatamente as suas entranhas, abrindo caminho para fora do corpo e fazendo um buraco no carpete.
29 de June, 2008
O fantasma de Nabokov é singularmente bobo
Meus pais voltaram de Portugal com livros, um podômetro e o exemplar de junho da revista Ler - na qual há coisas muito interessantes, entre elas uma foto de Saramago em que ele parece um avozinho chateado porque a filha não o deixou dar uma volta sozinho. Fiquei com pena de Saramago de todas as vezes que falei mal dele.
Mas como sou uma pessoa negativa e mesquinha, me deixe me concentrar no texto que gostei menos: José Eduardo Agualusa escrevendo como se fosse o fantasma de Vladimir Nabokov.
Por algum motivo, esse Nabokov, no céu, escreve num estilo completamente não-Nabokoviano - Agualusa não podia se esforçar um pouco para fazer uma paródia? - com umas generalizações de bom coração (sobre Obama: "É de novo Kennedy, de novo King, de novo o sonho a arrebatar a grande América. E o que seria da América sem o sonho?"), e umas menções aleatórias a lepidópteros. De fato você só percebe que é o fantasma de Nabokov porque há menções pro-forma a lepidópteros, ao Palace Hotel em Montreux e ao scrabble com alfabeto cirílico. Mas essas menções a coisas Nabokovianas logo desaparecem porque ele está muito interessado em falar sobre, entre todos os assuntos, Barack Obama.
E Nabokov gosta de Obama, né? Porque Nabokov era boa gente, né? Olha só:
"A Obama cumpre ainda reconhecer outro enorme mérito: recusou sempre ser um negro profissional, e isto num país onde uma larga porcentagem dos políticos de origem africana fez carreira explorando o remorso do homem branco."
Nabokov aparentemente não leu o livro de memórias de Obama, cujo subtítulo é "Uma História de Raça e Herança"; quer dizer, nem eu, claro, mas os trechos que li via Steve Sailer foram o suficiente para que eu saiba que Obama é completamente obcecado com raça. E nunca mais o levasse a sério. Sempre que falam de Obama lembro da reação histérica que ele diz que teve quando a avó, branca, que sustentava a família, ficou com medo de um mendigo negro. Obama, com uns 16 anos, acorda e ouve os avós conversando:
"Her lips pursed with irritation. 'He was very aggressive, Barry. Very aggressive. I gave him a dollar and he kept asking. If the bus hadn't come, I think he might have hit me over the head."
Segundo Sailer, o avô esquerdinha de Obama se recusou a levar a avó de carro ao trabalho, porque seria "moralmente errado". Quando ela sai da sala ele explica tudo para Obama:
"He turned around and I saw that he was shaking. 'It is a big deal. It's a big deal to me. She's been bothered by men before. You know why she's so scared this time. I'll tell you why. Before you came in, she told me the fella was black.' He whispered the word. 'That's the real reason why she's bothered. And I just don't think that right.'"The words were like a fist in my stomach, and I wobbled to regain my composure. In my steadiest voice, I told him that such an attitude bothered me, too, but reassured him that Toot's fears would pass and that we should give her a ride in the meantime. Gramps slumped into a chair in the living room and said he was sorry he had told me. Before my eyes, he grew small and old and very sad. I put my hand on his shoulder and told him that it was all right, I understood.
"We remained like that for several minutes, in painful silence. Finally he insisted that he drive Toot after all, and I thought about my grandparents. They had sacrificed again and again for me. They had poured all their lingering hopes into my success. Never had they given me reason to doubt their love; I doubted if they ever would. And yet I knew that men who might easily have been my brothers could still inspire their rawest fear."
Coloquei em negrito as partes que considero especialmente afrescalhadas. Ou, para falar a verdade, hipócritas; não acredito nelas um instante, e minha reação ao ler isso é dizer "Ah, vai". E depois Nabokov ainda vem dizer que Obama "recusou sempre ser um negro profissional". Sure, pops.
Ê, Nabokov, mas viu. Que a campanha do Obama tenha chegado até o céu me chateia muito.
26 de June, 2008
Seus orgulhos são bobos
A maior parte das pessoas não gosta de museu. Ou é isso ou é que quem não gosta de museu gosta tanto de não gostar de museu que fica repetindo que não gosta de museu o dia todo, se escondendo atrás de colunas dóricas e redomas de vidro e projetando a voz como ventríloquo, e portanto parece muitos. A mesma coisa com quem não vê televisão; grande parte do senso de identidade duma pessoa que não vê televisão vem do fato de não ver televisão, é um hobby, uma carreira, uma parafilia, e ele vai dizer que não vê televisão a propósito de qualquer coisa, numa discussão sobre fé ou enquanto chora ouvindo Puccini. Outra coisa é o sujeito que gosta muito de repetir que não é nem de esquerda nem de direita, às vezes logo quando se apresenta, ou no cartão de visitas; e claro, geralmente é de esquerda; ou pior monstro ainda, o sujeito cheio de nuanças, que não acredita em Bem e Mal, só nos dois misturados, embora eu não entenda muito como duas coisas podem vir misturadas se nem sequer existem, mas antes ao contrário devem sempre ser mencionadas numa vozinha sarcástica. Não sou particularmente fanático por pessoas que gostam de falar mal de coisas que ninguém nunca elogia explicitamente, como museus, assim em abstrato, tevê, dualidades radicais e simplistas, reality shows, "cult of celebrity" (quão imbecil, quão chatonildo é interromper uma fofoca sobre atrizes com bundas esquisitas exclamando WHO FUCKING CARES e reclamando do "culto à celebridade"?). São todas coisas que eu acho bacaninha, que defendo não-ironicamente e sem nenhum espírito de contrariedade - e ah, por falar nisso, sou a última pessoa viva que não fica repetindo que tem problemas com autoridade, aparentemente. Ou pelo menos nunca vi alguém dizendo explicitamente que se orgulha de não ter problemas com autoridade, que gosta de saber obedecer além de mandar. (Num contexto não-sexual, digo - ou a única obediência permissível agora é a kinky?) Todo homem gosta de se imaginar fazendo parte do elenco de The Dirty Dozen. Talvez eu também, mas pára de se orgulhar disso que cansou um pouco, e tenho a impressão que vai continuar cansando até que apareça muita gente dizendo "eu não tenho problema em obedecer, obedeço mesmo", com o queixo erguido e o pênis flácido. O próximo passo é se orgulhar muito de dizer "sujeito dócil tá aqui", apontando para o próprio peito (se disserem "só até o momento que te provocarem, né?", sorrindo cumplicitamente porque é isso que geralmente se espera de quem diz a frase anterior com orgulho, você deve responder "não, pode provocar que eu não faço nada", sem piscadelas), além de "você vai gostar de me ver irritado", "eu rezo pra entrar em briga e depois rezo pra sair" e, finalmente, "eu tenho sangue de barata sim". Quer se orgulhar de uma coisa, se orgulha de algo de que ninguém mais se orgulha, né.
23 de June, 2008
Szyk

Porque, como Auda Abu Tayi, sou como um rio para o meu povo, decidi pegar da estante a minha edição antiguinha dos contos de Hans Christian Andersen da Grosset and Dunlap e escanear as ilustrações de Arthur Szyk.
16 de June, 2008
Poodlet
Ouvi dizer que há escritores com "preocupações", e os visualizo todos na forma de bustos de bronze com poderosas testas franzidas, mas realmente o que me interessa na literatura são detalhes - como a preceptora de Van que vinha dar aulas, três vezes por semana, "with a bagful of books and the tiny, tremulous poodlet (now dead) that could not be left behind. It had glistening eyes like sad black olives", ou ainda aquelas pedras escaldadas da varanda na primeira página d'O Primo Basílio. Mesmo em não-ficção a minha constituição mental naturalmente burraldina me impede de apreender abstrações e acabo me lembrando, às vezes por muitos anos, como detalhes da minha própria vida, com mais persistência do que muitos detalhes da minha própria vida, do tilintar das garrafas de água mineral junto à janela de um trem que está saindo da Gare du Nord para Moscou numa manhã de 1937, nas memórias de viagem de Sir Fitzroy MacLean ("the bottles of mineral water by the window clinked gently one against the other"), enquanto detalhes da situação política da época se me esquecem todos, escorrendo pelos ouvidos afora, aos borrifos.
Tenho sempre a impressão de que as hostes de visualizadores estão diminuindo e que estamos cercados por cérebros, grandes cérebros e pequenos cérebros, mas basicamente cérebros, sem olhos. E por falar nisso, com imensa alegria de finalmente poder mostrar num contexto apropriado que li esse livro, digo que, no capítulo sobre Imaginação do The Principles of Psychology, William James cita o psicólogo experimental alemão Gustav Fechner (cuja aparência de médico dermatologista, vereador-poeta e membro da academia pernambuquense de letras peço que confira aqui):
"I had begun by questioning friends in the scientific world, as they were the most likely class of men to give accurate answers concerning this faculty of visualizing, to which novelists and poets continually allude (...). To my astonishment, I found that the great majority of the men of science to whom I first applied protested that mental imagery was unknown to them, and they looked on me as fanciful and fantastic in supposing that the words "mental imagery" really expressed what I believed everybody supposed them to mean. They had no more notion of its true nature than a color-blind man, who has not discerned his defect, has of the nature of color. They had a mental deficiency of which they were unaware, and naturally enough supposed that those who affirmed they possessed it were romancing". (O próprio William James diz numa nota de pé de página: "I am myself a very poor visualizer.")
Bom, como pessoas dessas poderiam sentir prazer com o trêmulo poodlet de olhos de azeitonas tristes, ou (ouso falar com você, Machado de Assis?) as muitas descrições de Eça de Queirós? O que essas pessoas podem encontrar em literatura exceto filosofias, idéias, "preocupações", o tal do Zeitgeist? Consumismo em Don DeLillo - por Deus! E quais são mesmo essas teorias sobre paranóia, teorias da conspiração, assassinatos políticos? Consegue dizer antes que eu entre em coma alcoólico?
Entre os blogs que leio, entre alguns daqueles que eu gosto mais, há um tipo escrito por bons rapazes de vinte e poucos anos, inteligentes, de tendências filosóficas, de tendências abstratas, que um pouco na esteira de Olavo de Carvalho lêem Bernanos por causa do catolicismo - eles talvez objetassem a esse "por causa" - ok, não por causa, mas escrevendo ensaios tão longos sobre Musil ou Kafka, e tão abstratos na índole que me pergunto se não caem na categoria dos cientistas mencionados por Fechner, que têm pouca ou nenhuma capacidade de visualização, e que portanto sentem muito pouco prazer com qualquer detalhe visual na literatura, pulando descrições ou simplesmente dando de ombros diante da coisa toda, como se fossem afetações, e indo ao que importa. Não falo com desprezo, alguns deles sendo muito bons no que escrevem; é mais constatando uma diferença mental, e me perguntando se esses não-visualizadores não fariam melhor se concentrando em filosofia.
Quase todos os blogueiros com quem entro em contato me dizem que preferem ler não-ficção de qualquer maneira, e se não estão lendo uma maldita biografia de Stálin (mas aí é preciso visualizar coisas) estão lendo Aristóteles ou Voegelin ou o que o valha. Onde estão meus irmãos visualizadores? Seremos para sempre desprezados porque estamos num canto coletando imagens de garrafas e poodles?
Fechner de novo: "My own conclusion is that an over-ready perception of sharp mental pictures is antagonistic to the acquirement of habits of highly-generalized and abstract thought, especially when the steps of reasoning are carried on by words as symbols", e acho que é isso que explica minha dificuldade de me lembrar de qualquer coisa das horas e horas de leitura juvenil de Espinoza, além da fonte em que os livros foram impressos e onde eu estava sentado naquela tarde perdida.
Há uma barreira de sono impedindo a minha entrada no templo quase pelado da Filosofia. Não consigo ler duas frases seguidas se não tiverem alguma coisa para ser visualizada nelas: uma amora espremida que seja. Aceito isso; mas, por outro lado, no contato diário, me cansei um pouco de amigos reclamando de descrições em romances. Vai ler Frege então, imbecil!
12 de June, 2008
My Baby Drives a Buick
Essa é a última cena de "Os Sopranos" (4:50). Quando vi pela primeira vez, gostei bastante, mas achei que era um final em aberto e tal.
Este post me convenceu de que Tony é assassinado e que o fade to black é visto pelos olhos dele. É bem comprido, e escrito por uma dessas pessoas que por algum motivo sabem que o plural de "sin" é "sins", mas acha que o de "camera" é "camera's". Um nerd iletrado mas convincente. Já tinha lido outras pessoas argumentando a mesma coisa, mas essa é a explicação mais meticulosa.
Para quem não tem paciência de ler tudo: a cena toda basicamente consiste no Tony Soprano sentado na cabine de um diner esperando pela família. Ele olha para a máquina de tocar música e, depois, o menu. Cinco vezes, a câmera está apontada para ele olhando pra baixo, ele ouve a sineta da porta de entrada e levanta a cabeça pra ver quem está entrando, e daí corta para a pessoa que está entrando como se fosse vista por ele. Digo, não cinco, quatro vezes; porque da quinta ele está olhando pra baixo, ouve a sineta, levanta a cabeça para ver quem está entrando e daí a música é interrompida - corta para um fundo negro, durante dez segundos, até que os créditos entrem.
Fiz uma ilustraçãozinha disso pra ver se fica mais convincente. Por ordem de entrada: uma mulher, um cara de boné, Carmela, um cara usando um casaco Members Only (o assassino, doravante chamado Members Only Guy ou MOG) junto com A.J., e Meadow (que entra na hora do tiro e não é vista entrando, só um pouco antes de entrar.)

O ponto todo é que fomos preparados a esperar que depois de Tony ouvir a sineta e erguer a cabeça, a imagem seguinte vai ser vista pelos olhos dele. Na quinta vez, no momento em que deveríamos estar vendo o que ele está vendo, só há um fundo negro. E a música é interrompida. O fato de que alguém sendo baleado poderia não ouvir o tiro é mencionado várias vezes ao longo da série.
E fiz também um desenho do Holsten's, o diner. O assassino, MOG, entra um pouco na frente de AJ, senta num banco perto da entrada, olha pro diner todo, e depois é visto olhando de novo na direção de Tony. Levanta, vai ao banheiro (fazendo força para não fazer contato visual com Tony) e na saída do banheiro, presumivelmente, atira.
Ao contrário do que o autor do post diz, o assassino não vai atirar por trás de Tony, mas pela direita - oh, ok, está bem, pela direita e um pouco por trás. E é verdade que se Meadow já tivesse sentado (no lugar marcado por "?") ela atrapalharia a linha de tiro.
Depois de ler a explicação e rever a cena, fica evidente que o comportamento do MOG é muito suspeito. Mas quando vi pela primeira vez, sei lá, achei até os escoteiros meio suspeitos. E esqueci de escrever que os dois negros olhando os doces são cheios-de-manha (olha como eles andam).
Se você acha que isso é prestar atenção demais numa série de tevê, bom, você é um bobo. Prestar uma atenção patológica em algumas coisas é a única maneira de se divertir neste mundo.
9 de June, 2008
Terça

Do email que o Martim Vasques mandou pra uma lista:
"O lançamento será na Livraria Cultura da Avenida Paulista, no dia 10 de junho, uma terça-feira, às 19 hs. Haverá o tradicional comes e bebes e outras coisas a mais. (...) O primeiro número tem um texto inédito do prof. Luiz Felipe Pondé sobre o Eclesiastes, a última aula de Bruno Tolentino, um ensaio do prof. dr. Mendo Castro Henriques sobre o filósofo Bernard Lonergan e um artigo de Roger Kimball sobre Friedrich Hayek. Mas, além disso (...), há a coluna "Anatomia do Poema", feita por Pedro Sette Câmara, um conto inédito de Antônio Fernando Borges, um belissímo texto de Paulo Ricardo de Almeida sobre o cinema de Max Ophüls, uma resenha devastadora que só o Dante (agora assinando sob sua verdadeira insígnia, Marcelo Ferlin) sabe fazer - o alvo é Ian McEwan - e, last but not least, a nova coluna do rei do humor, Ruy Goiaba.
Não preciso dizer a vcs todos que esta é uma oportunidade única: pela primeira vez, a nova e a velha geração de intelectuais que lutam contra o FEBEAPÁ se unem em uma publicação impressa (e, antes de tudo, extremamente profissional) para um projeto de longo prazo."
1 de June, 2008
Oxford em 1968
"E foi assim que um pequeno conjunto de boas vontades se congregou para me levar a St. Antony's College no verão em que Salazar caiu da cadeira: dois acontecimentos que sem dúvida assinalam o santo dedo da Providência. Oxford era ainda em 1968 uma universidade aristocrática. Havia criados de casaco branco e calça preta que nos serviam à mesa e cada um de nós tinha um segundo servo, o scout, para o serviço doméstico e tarefas avulsas. Principalmente, não se usava dinheiro: assinavam-se papelinhos e não se pagava a renda da casa, aliás ridícula, que o Colégio nos distribuía. De três em três meses, vinha a conta. Ninguém esperava, como é óbvio, que a pagássemos, sendo notório que utilizávamos o dinheiro de formas mais altas e festivas. A aparição da conta exigia apenas uma visita ao Tesoureiro de St. Antony's, um velho major da Índia, invariavelmente predisposto a compreender apertos financeiros, a quem se contavam mentiras estapafúrdias a troco de moratórias sem prazo.
À custa da dívida a St.Antony's comprei logo uma instalação de alta fidelidade e um carro e passeei por Itália, por França e até por Espanha, enquanto a Gulbenkian me supunha estudiosamente sentado no meu quarto de Oxford. Oxford não me impunha qualquer espécie de obrigações, o contrato entre mim e a Universidade era simples: se eu fizesse uma tese razoável, a Universidade entregava-me um papel a imitar pergaminho, declarando-me doutor. Se não fizesse, tanto pior. A Universidade não pretendia meter o nariz nos meus assuntos ou sequer dar opiniões sobre a melhor maneira de fazer teses. O professor Raymond Carr ia lendo a minha prosa a intervalos irregulares e falava às vezes comigo no bar do Colégio sobre política ou sobre os méritos e deméritos da cozinha espanhola. Mas também ele achava que eu devia tratar de mim e não maçar as pessoas.
Tirando algumas paixões tumultuosas e a geral escassez da fêmea da espécie na região, a vida de Oxford não podia ser mais doce. Depois do pequeno-almoço, duas horas calmas com jornais e café na sala do Colégio. Entre as onze e a uma, cartas, compras, uma volta pela cidade ou a pura e pacífica contemplação do nada. Almoço e sesta. Das três às sete, ler ou escrever. Às sete, o bar para o merecido conforto do álcool, enquanto não se jantava ou não chegava o momento de seguir para um restaurante decente. Os dias passavam, os meses passavam, passaram os anos, sem um encargo, um compromisso, um dever a cumprir.
Chama-se a isto "ociosidade criadora", noção clássica inteiramente estranha a gente rústica e pindérica como os portugueses e sobretudo às classes médias enlouquecidas pelo trabalho da nova era "liberal". Em Oxford, as minhas ambições académicas, coitadinhas, acabaram antes de começar, exceto se se entender que o desejo de voltar para Oxford, como Oxford era em 1968, antes da senhora Thatcher e do dinheiro japonês, com o propósito de permanecer ocioso e de assegurar os meus cómodos e confortos, constitui uma ambição académica. Porque essa admito que me apareceu por volta de 1977 e nunca mais me largou.
Em 1968, a Universidade, de resto, não estimava os campeões, a não ser os de remo, e desencorajava o zelo e a competição "científica". Os eruditos, os laboriosos e os prolíficos não inspiravam qualquer simpatia. As luminárias "teóricas" eram objecto de uma justa condescendência e nem mesmo o título de "professor", em Oxford honorífico e aleatório, suscitava o temor reverencial a que normalmente está associado em países bárbaros. A Universidade preferia a inteligência, a graça, a extravagância, e até a pura preguiça; e no fundo, como Salisbury, execrava o "mérito" burguês".
Vasco Pulido Valente, "O Modo da Vida", em "Retratos e Auto-Retratos".
28 de May, 2008
Gosta direito das coisas, menino
É difícil gostar direito das coisas, no sentido de saber escrever sobre as coisas de que se gosta. É difícil desgostar direito também, tanta gente desgostando errado. Mas a verdade é que quase todos os escritores que acho bons são melhores desgostando que gostando.
Três motivos: um, ouvir pessoas falando mal de alguém é mais divertido que ouvir pessoas falando bem de alguém. No segundo caso você provavelmente vai deixar de prestar atenção, bocejar um pouco, por mais que em teoria aprove o tom benigno da conversa. Dois, quando se trata de falar mal o cérebro meio que colabora, fica todo criativo, inventa símiles e frases elaboradamente retorcidas. Três, a sua tolice, quando você escreve de algo que gosta, fica mais visível.
Li muitas pessoas que pareciam imensamente sábias quando estavam falando de algo de que não gostavam, porque os critérios para desgostar delas pareciam todos bons, especialmente porque ficavam retoricamente disfarçados, mas que assim que tentaram escrever sobre algo que gostavam usaram um critério para gostar que me pareceu cretino. Critérios para gostar das coisas são mais difíceis de escolher. Quase todo mundo soa bobo quando gosta muito de algo; há algo de pessimista na mente humana que faz com que acreditemos que se alguém está falando muito bem de alguma coisa, é provavelmente um bobo alegre.
Para fugir disso tenho seguido o conselho de Mencken: se quer falar bem de algo, em vez de falar bem desse algo fale mal de quem fala mal desse algo. É mais fácil ser divertido assim, e afinal a maledicência pode ser realmente um talento. Mas ainda quero dominar a arte bastante rara de falar bem das coisas diretamente e sem parecer bobo. Assim de cabeça não consigo lembrar de ninguém que escreva consistentemente assim, um talento benévolo, alguém cujo bom-gosto seja tamanho que a sua mente nem apreende muito bem a existência de coisas feias, quanto mais mantê-las na consciência tempo suficiente para escrever sobre elas. Não em não-ficção, pelo menos (em ficção sempre há Wodehouse). Imagine um The Sartorialist literário, talvez - alguém com a mesma abençoada incapacidade de snarkiness e uma atenção exclusiva e informada a coisas bonitas. Por natureza não sou assim, as coisas feias permanecem na minha mente dançando pagode, leio blogs ruins de propósito, e quase sempre a minha motivação para escrever é falar mal das coisas feias. Mas queria mudar isso. E pelo menos, pelo menos, não quero ser um desses espíritos do umbral que são incapazes de escrever das coisas que gostam sem dar a impressão de que as desprezam um pouquinho.
24 de May, 2008
Meu primeiro post feito na munheca


